• Joana Maia Pita

A sustentabilidade da moda

Sustentabilidade


"Sustainability focuses on meeting the needs of the present without compromising the ability of future generations to meet their needs."1

O conceito de sustentabilidade está ligado a um presente consciente, seja das nossas necessidades como das dos outros e está intimamente ligado a um futuro equilibrado, tanto a nível económico, como social e ambiental. Para se obter sustentabilidade temos necessariamente que ligar estes 3 pilares, o pilar da viabilidade económica, da justiça social e da preservação ambiental, garantindo que as futuras gerações tem, por sua vez, um futuro sustentado. 

Olhamos agora para a sustentabilidade com outros olhos, ganhámos a noção que estamos a desgastar um planeta e inviabilizar as gerações futuras mas queremos também alterar o rumo e viver de um modo diferente. 

Essas mudanças podem ocorrer a vários níveis, no dia-a-dia por exemplo, só a utilização de uma garrafa de água reutilizável poupa o consumo de 264 garrafas de plástico (uma por cada dia útil num ano). Pequenas mudanças que vão poupando o que produzimos em lixo. 

Menos falado mas não menos expressivo, é o impacto das nossas roupas. O impacto ambiental da moda é demasiado pesado para o nosso planeta, seja em consumo de água e poluição da mesma, em emissão de dióxido de carbono para a atmosfera, em utilização de químicos tóxicos e mesmo na produção de resíduos têxteis. Principalmente quando a roupa nos últimos anos tem sido vista como descartável com o aumento do fenómeno fast fashion




Fast fashion e o impacto ambiental


"The production and promotion of such cheap and readily disposable clothes are a recent phenomenon referred to as fast fashion."

A indústria da moda tem apresentado um crescimento acentuado desde o início do século, em 14 anos (entre 2000 e 2014), a produção de roupa duplicou, com um consumidor médio a comprar mais 60% do que comprava há 15 anos atrás. No entanto, comparativamente, cada peça de roupa é agora mantida metade do tempo nos nossos armários.2


 A indústria têxtil utiliza grandes quantidades de água, estimando-se que se utiliza em média 200 toneladas de água para a produção de uma tonelada de têxteis. A maior percentagem da utilização de água está associada ao cultivo do algodão e a processos de produção dos têxteis como o branqueamento, o tingimento, a impressão e o acabamento.3

A pegada hídrica global do algodão é de 10.000 litros por kg, em média, o que significa que uma camisa de algodão de 250 g necessita de 2.500 litros de água para ser produzida.4

Além de um consumo de água intensivo, esta indústria também contribui para a poluição aquática de um modo expressivo, nomeadamente a indústria têxtil que inclui técnicas de coloração e acabamento é a segunda mais poluente de água limpa no mundo (a primeira é a agricultura).5,6

 

A contaminação química advém de que a indústria da moda utiliza mais de 15.000 químicos diferentes. Em termos de valores, em 2014, o algodão foi responsável por 5,7% da utilização global de pesticidas, incluindo 16% de inseticidas, 3.9% de herbicidas, 4% reguladores de crescimento, dessecantes e desfolhantes e 1% de fungicidas. 7

O recurso a estas substâncias químicas na indústria têxtil apresenta efeitos negativos para com os agricultores, os trabalhadores fabris e para o meio ambiente. As descargas de águas industriais levam à contaminação de lagos ou rios, sendo que esta indústria é responsável por 20% das águas residuais globalmente produzidas.6

Ao nível da poluição atmosférica, a indústria da moda emite 10% das emissões de dióxido de carbono, sendo que as Nações Unidas estimam que em 2050, a este ritmo, a indústria da moda será responsável por um quarto da pegada mundial de carbono. 6

Esta pesada pegada de carbono deve-se à elevada utilização de energia mas também ao tipo de fornecimento. Na China, por exemplo, o processo de fabrico depende energeticamente do carvão, resultando numa pegada 40% superior à dos têxteis produzidos na Europa e Turquia. 3


O aumento da produção e consumo em fast fashion levaram necessariamente a um aumento de resíduos têxteis. 

Em 2017, em Portugal Continental, produziram-se cerca de 182.000 toneladas de resíduos têxteis, 4% dos resíduos urbanos, o que equivale a 18,57 kg de resíduos têxteis per capita.8 Enquanto que no  Reino Unido a média anual de resíduos têxteis por pessoa é de 30 kg.9 As Nações Unidas referem que, a cada segundo, o equivalente a um camião de têxteis é colocado em aterro ou incinerado. 6

Fonte: https://www.ellenmacarthurfoundation.org/assets/downloads/publications/A-New-Textiles-Economy_Full-Report.pdf

Apesar desta produção excessiva de resíduos têxteis antes e depois do consumo, a taxa de reciclagem destes materiais é baixa. Em 2015 apenas 15% de resíduos têxteis no pós-consumo foram recolhidos separadamente para serem reciclados e menos de 1% dos materiais utilizados na produção foram reciclados para a produção de novas peças de vestuário. 3,10

O modelo atualmente aplicado no sector da moda é baseado em um número crescente de produção e vendas, processos de fabrico rápidos, baixa qualidade dos produtos e com vida útil reduzida, o que leva a um consumo insustentável, com uma produção de resíduos excessiva e um impacto ambiental associado. 3

O sistema linear, a que se recorre atualmente, utiliza elevadas quantidades de recursos com um impacto negativo associado, tanto no meio ambiente como nas pessoas. É uma a indústria que assenta essencialmente em energias não renováveis, incluindo petróleo para a produção de fibras sintéticas e fertilizantes para a produção de algodão.10

Qual a solução?

Todos os dias nos vestimos e é pela moda que nos apresentamos e nos identificamos, assim como nos expressamos. Mas como nos exprimirmos numa moda que se tornou insustentável? Como podemos alterar o nosso consumo, de modo a tornarmos as nossas decisões sustentáveis e conscientes? 

Uma hipótese é abrandar o ritmo, reduzindo o impacto ambiental da indústria da moda através da mudança de um sistema linear (recurso, produção, consumo, resíduo) para um sistema circular (recurso, produção, consumo, reutilização), mantendo os materiais em circulação por mais tempo.3

Outra abordagem consiste em considerar novos modelos de negócio, como aluguer, leasing, upcycling, reparar e revender, os quais permitem maior vida útil do produto e, ao mesmo tempo, propõem um novo estilo de vida mais lento para os consumidores.3

Consumidores em países com maior poder económico podem fazer parte da solução, promovendo justiça ambiental, comprando peças de alta qualidade que duram mais tempo, comprando em segunda mão, reparando as roupas que já possuem ou mesmo adquirindo em locais com fabrico e distribuição transparentes.11

A indústria da moda fast fashion apresenta assim várias implicações no que diz respeito à sustentabilidade, seja pela pegada ecológica, seja mesmo pelo modelo económico que nos apresentou como viável, revelando-se a longo termo uma tendência impossível de garantir um futuro justo e limpo.


Em contraste à fast fashion, surgiu o movimento slow fashion, baseado num consumo consciente, ético e mais ecológico, em que o consumidor procura estar informado sobre a marca, o processo de fabrico, as condições de trabalho fornecidas aos trabalhadores e ao impacto dos tecidos que compõem a peça de roupa. 

É precisamente a consciencialização da insustentabilidade deste modelo que nos motiva a mudar e a procurar novas oportunidades, até porque é pelo modo como nos vestimos e que nos exprimimos que demonstramos os nossos valores e naquilo que acreditamos. 

1https://www.investopedia.com/terms/s/sustainability.asp

2 https://www.unece.org/info/media/presscurrent-press-h/forestry-and-timber/2018/un-alliance-aims-to-put-fashion-on-path-to-sustainability/doc.html

3 https://www.nature.com/articles/s43017-020-0039-9#Sec3

4 https://waterfootprint.org/en/resources/interactive-tools/product-gallery/

5 https://www.scirp.org/journal/paperinformation.aspx?paperid=17027

6 https://www.unenvironment.org/news-and-stories/story/putting-brakes-fast-fashion

7 https://issuu.com/pan-uk/docs/cottons_chemical_addiction_-_update?e=28041656/62705601

8https://apambiente.pt/_zdata/DESTAQUES/2019/PERSU2020/PERSU2020%20_Audicao_Publica_dez2018.pdf

9 https://www.ifm.eng.cam.ac.uk/uploads/Resources/Other_Reports/UK_textiles.pdf

10 https://www.ellenmacarthurfoundation.org/assets/downloads/publications/A-New-Textiles-Economy_Full-Report.pdf

11https://link.springer.com/article/10.1186/s12940-018-0433-7



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